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Os 62 cadernos que duraram duas semanas

Em 25 de abril de 1983, uma revista de Hamburgo apresentou os volumes; o arquivo federal alemão apontou papel e cola do pós-guerra.

Cadernos de capa preta empilhados sobre mesa de imprensa, com microfones e luz dura de coletiva.

Hamburgo, 1983, os cadernos na mesa

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"Hitlers Tagebücher entdeckt", os diários de Hitler descobertos, foi a manchete que a revista alemã Stern estampou na capa vendida em 25 de abril de 1983, no mesmo dia em que reuniu a imprensa internacional na sede da editora em Hamburgo.

A coletiva foi montada como lançamento editorial, não como apresentação de documento histórico. Havia mesa de autoridades, cadernos expostos sob vidro, tradução simultânea e uma promessa comercial: a revista publicaria trechos em série ao longo de dezoito semanas, e já havia negociado direitos de reprodução com jornais fora da Alemanha.

O que estava sobre a mesa somava 62 volumes de capa preta, mais um caderno separado sobre o voo de Rudolf Hess à Escócia em 1941. Segundo a própria revista, o material cobria o período de 1932 a 1945 e teria sido recuperado de um avião de transporte que caiu perto de Dresden nos últimos dias da guerra, ficando escondido em território alemão oriental por quase quatro décadas.

O repórter que levara o material à redação era Gerd Heidemann, funcionário da casa desde os anos 1950, com trânsito reconhecido em círculos de colecionadores de objetos do Terceiro Reich. Ele apresentava a operação como uma longa negociação com um intermediário que preferia anonimato, e a direção da revista pagara pelas entregas em parcelas, ao longo de dois anos, sem que o setor financeiro soubesse o total acumulado.

A operação tinha escala industrial de imprensa. A editora contratara segurança para transportar os volumes, alugara cofre de banco para guardá-los e organizara a série em capítulos semanais, com chamadas de capa já planejadas até setembro. Jornais de três países haviam comprado direitos de tradução antes de qualquer laboratório ter tocado no papel.

Duas semanas depois daquela coletiva, o Bundesarchiv, o arquivo federal alemão, divulgou o resultado do exame laboratorial que havia recebido do Instituto Federal de Pesquisa de Materiais. O laudo não discutiu estilo, caligrafia ou plausibilidade histórica. Discutiu papel, tinta, cola e linha de encadernação.

Comece pelo que aconteceu naquele salão em Hamburgo, e por quem garantiu ali que os cadernos eram autênticos.

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I  A Conspiração do Dia

A coletiva de 25 de abril em Hamburgo

A tese diz que uma das maiores revistas da Europa apresentou como documento histórico um conjunto de cadernos escritos poucos anos antes por um falsificador, e que a checagem sobre o objeto físico só foi feita depois de a decisão de publicar já estar tomada.

O salão da editora Gruner + Jahr estava cheio na manhã de 25 de abril de 1983. A revista havia convocado a imprensa mundial, e o anúncio já circulava desde a véspera por causa da capa em bancas e da série que o Sunday Times, de Londres, começaria a publicar no fim de semana seguinte.

A mesa tinha dois nomes de peso acadêmico. Hugh Trevor-Roper, historiador britânico de Oxford, autor de um livro de 1947 sobre os últimos dias no bunker de Berlim, havia examinado parte do material em Zurique dias antes e escrevera no jornal The Times, em 23 de abril, que considerava os documentos autênticos. Gerhard Weinberg, historiador alemão radicado nos Estados Unidos, também havia sido consultado, com ressalvas mais duras.

Trevor-Roper mudou de posição na própria coletiva. Diante do microfone, disse que havia reconsiderado, e que a procedência do material precisava ser esclarecida antes de qualquer afirmação sobre autenticidade. A cena aconteceu com a série já impressa e com a revista da semana à venda.

A revista sustentou a publicação mesmo assim. A direção editorial afirmou ter feito verificações de caligrafia com peritos contratados, comparando a escrita dos cadernos com documentos tidos como assinados por Hitler.

"Sou obrigado a dizer que meu nível de confiança mudou. A ligação normal entre um documento e sua procedência havia sido rompida."

Hugh Trevor-Roper, depoimento reproduzido em "Selling Hitler", de Robert Harris, 1986.

A pergunta que o caso deixa de pé: quem checou os documentos de comparação usados pelos peritos de caligrafia contratados pela revista.

A perícia caligráfica caiu pela origem do material de comparação. Boa parte dos documentos usados como padrão de escrita autêntica havia saído da mesma fonte que fornecera os cadernos. Os peritos compararam a letra do falsificador com a letra do falsificador, e encontraram coincidência.

Havia ainda um sinal visível sem laboratório. As iniciais em metal aplicadas na capa de vários volumes traziam letras góticas que formavam FH, e não AH, provavelmente por erro de leitura de tipografia antiga por parte de quem montou os cadernos.

Falta entender de onde saíram os 62 volumes e quem escreveu cada linha deles.

 
 

II  A Origem

Um falsário de Stuttgart e um repórter com pressa

A origem tem dois personagens e um mercado. Konrad Kujau, nascido na Saxônia em 1938, vendia objetos do Terceiro Reich em Stuttgart desde os anos 1970. Gerd Heidemann, repórter da revista em Hamburgo, colecionava o mesmo tipo de material e havia comprado, em 1973, um iate que pertencera a Hermann Göring.

O primeiro fator é o mercado de relíquias. Nos anos 1970, existia na Alemanha Ocidental um circuito privado de colecionadores que negociava uniformes, cartas, condecorações e manuscritos atribuídos a figuras do regime, quase sempre sem cadeia de custódia documentada e com pagamentos em dinheiro vivo.

O segundo fator é a produção material. Kujau comprava cadernos escolares baratos, envelhecia as capas com chá e as batia contra a mesa para simular desgaste, e copiava trechos de uma coletânea de discursos e proclamações organizada pelo historiador Max Domarus, publicada nos anos 1960, transformando registros públicos já conhecidos em anotações supostamente privadas.

O terceiro fator é o primeiro cliente. Um colecionador de Stuttgart chamado Fritz Stiefel comprou um dos volumes ainda no fim dos anos 1970 e o mostrou a conhecidos. Foi por essa via que a notícia da existência de um diário chegou ao repórter, em 1980.

O quarto fator é a história de origem. Kujau afirmava que os cadernos vinham do avião acidentado perto de Dresden em abril de 1945 e que um irmão dele, oficial na Alemanha Oriental, cuidava do contrabando dos volumes através da fronteira, entregando um ou dois por vez. A entrega parcelada sustentou o pagamento parcelado.

O quinto fator é o dinheiro. Pelas contas apresentadas depois pela própria editora, a revista desembolsou 9,3 milhões de marcos alemães pelo conjunto. Nem todo o valor chegou ao falsificador: parte ficou com o intermediário, e a apuração interna depois estimou que o repórter reteve alguns milhões.

O sexto fator é a estrutura da redação. A operação correu em sigilo dentro da própria casa, com um número pequeno de pessoas informadas, argumento de proteção contra vazamento para concorrentes. A consequência prática foi que o material não passou pelos controles normais de checagem antes da decisão de comprar.

Falta ver o que o laboratório encontrou quando finalmente teve os cadernos na mão.

 

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III  O Combustível

O que o laudo do arquivo federal mediu

A conclusão não veio de análise histórica. Veio de química de papel. O Bundesarchiv encaminhou os volumes ao Instituto Federal de Pesquisa de Materiais e a laboratórios de polícia técnica, e o resultado foi anunciado em 6 de maio de 1983, duas semanas depois da coletiva de Hamburgo.

O papel dos cadernos continha agentes de branqueamento óptico que passaram a ser usados na indústria de celulose depois do fim da guerra. Um papel de 1943 não teria como brilhar sob luz ultravioleta do jeito que aquelas folhas brilhavam.

O que o exame encontrou: clareador óptico no papel, linha de poliéster na encadernação, cola sintética nas capas, tintas cujos componentes só entraram no mercado no pós-guerra e evaporação de cloro nos traços indicando escrita recente, com parte do texto aplicada em prazo de meses e não de décadas.

O que o texto entregou: cópia. A comparação com a coletânea de discursos e proclamações organizada por Max Domarus mostrou trechos inteiros transpostos, incluindo erros de datação presentes naquela edição, que reapareceram nos cadernos exatamente onde estavam no livro impresso.

O que continua em disputa: o valor exato retido por cada envolvido e quantos volumes foram escritos antes do contato com a revista. As contas apresentadas no tribunal de Hamburgo e as versões dadas depois pelos dois condenados nunca fecharam entre si.

As datas do caso, com a origem de cada uma:

·  Primeiro volume vendido ao colecionador Fritz Stiefel, em Stuttgart: 1978
·  Contato entre o repórter da revista e o vendedor dos cadernos: 1980
·  Início dos pagamentos da editora pelas entregas parceladas: 1981
·  Artigo de Hugh Trevor-Roper no jornal The Times atestando autenticidade: 23 de abril de 1983
·  Capa da revista Stern e coletiva de imprensa em Hamburgo: 25 de abril de 1983
·  Anúncio do resultado laboratorial pelo Bundesarchiv: 6 de maio de 1983
·  Condenação de Konrad Kujau e Gerd Heidemann pelo tribunal de Hamburgo: julho de 1985

A versão mais frágil que circula por aí é a de que ninguém desconfiou. Historiadores consultados apontaram problemas de conteúdo antes da publicação, e o próprio arquivo federal já havia recebido, anos antes, material atribuído ao mesmo vendedor com suspeita registrada.

Outra confusão comum trata o episódio como falha de perícia caligráfica. A caligrafia foi comparada com padrões contaminados, e a resposta veio de um teste barato sobre o objeto físico, disponível desde o primeiro dia.

Então por que o caso continua valendo estudo? Porque ele separa duas perguntas que costumam andar juntas. Uma é se o texto parece verdadeiro. A outra é de onde veio o papel. A segunda custa menos e responde primeiro.

Os diários atribuídos a Hitler são o caso mais caro de documento fabricado aceito por uma redação profissional, e o que os derrubou levou duas semanas de laboratório. A lição prática: quando um achado histórico chega sem cadeia de custódia, o exame do suporte físico vale mais do que qualquer leitura do conteúdo.

"Um documento sem procedência conhecida já pode ser chamado de documento?"

Confira sozinho, em três buscas:
a data em que o Bundesarchiv anunciou o resultado do exame dos cadernos;
o valor em marcos alemães que a editora afirmou ter pago pelo conjunto;
o nome do organizador da coletânea de discursos de onde os trechos foram copiados.

 
 

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Segundo a apuração da própria editora, quanto a revista Stern pagou pelo conjunto de 62 cadernos com o diário atribuído a Hitler?

A2,3 milhões de marcos alemães
B15 milhões de marcos alemães
C9,3 milhões de marcos alemães
D4,6 milhões de marcos alemães

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