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ED 005

Os baús de Tesla saíram do quarto em dois dias

Em janeiro de 1943, dois caminhões tiraram os pertences do inventor do Hotel New Yorker e levaram tudo para um depósito lacrado.

Baús de metal e volumes amarrados empilhados sob lacre num depósito de Manhattan, à luz fraca de uma lâmpada, no inverno de 1943.

Depósito em Manhattan, janeiro de 1943

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No dia 8 de janeiro de 1943, uma camareira do Hotel New Yorker ignorou a plaquinha de não perturbar e abriu a porta do quarto 3327. Nikola Tesla morava ali havia quase dez anos, no trigésimo terceiro andar, cercado de pastas, cadernos e caixas que ninguém tinha autorização de tocar.

O aviso na maçaneta era regra da casa havia dias, e por causa dele o quarto ficou fechado desde a noite de 5 de janeiro. O inventor tinha 86 anos e vivia de uma pensão paga pelo governo iugoslavo, num hotel que ele já não conseguia bancar sozinho.

A notícia chegou ao FBI na mesma tarde. No dia seguinte, o Escritório de Custódia de Bens Estrangeiros, órgão do Departamento de Justiça criado para administrar patrimônio de estrangeiro em tempo de guerra, mandou recolher tudo o que havia no quarto.

Dois caminhões saíram carregados do hotel. O destino era a Manhattan Storage and Warehouse Company, um depósito na esquina da Sétima Avenida com a rua 52, onde Tesla já guardava barris e volumes desde a década anterior por falta de espaço e de dinheiro.

No depósito o material foi contado, amarrado e lacrado. Um dos baús que hoje está em Belgrado ainda carrega a etiqueta original do escritório federal, com o nome do representante que fechou o lacre e a data batida à máquina: 11 de janeiro de 1943.

Três dias antes do lacre, o sobrinho do inventor, o diplomata iugoslavo Sava Kosanović, tinha entrado no quarto com um chaveiro e aberto o cofre pessoal de Tesla. O detalhe está no arquivo que o FBI publicou décadas depois, e explica a pressa federal para quem estava lá.

No fim de janeiro, um engenheiro do Instituto de Tecnologia de Massachusetts foi levado ao depósito para dizer ao governo o que havia dentro das caixas. Passou dois dias entre pastas e voltou com um relatório de poucas páginas.

Entre a porta aberta pela camareira e o lacre no depósito passaram menos de setenta e duas horas. É desse intervalo curto que sai a teoria mais repetida sobre Tesla até hoje, e vale começar por ela, do jeito como circula.

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I  A Conspiração do Dia

O caderno preto que sumiu do cofre

Um cofre aberto por chaveiro, um caderno preto que sumiu e dois caminhões parados na porta do hotel.

A versão mais repetida diz que o governo dos Estados Unidos esvaziou o quarto de Tesla em dois dias para tirar de circulação uma tecnologia de energia sem custo, pronta e testada, guardada ali havia anos. Na narrativa, o que saiu do hotel nunca voltou inteiro.

O ponto de partida é a queixa do sobrinho. Kosanović contou que conhecia um caderno preto de várias centenas de páginas, com parte das folhas marcada com a palavra Governo, e que o caderno não estava entre os pertences quando ele voltou ao quarto.

O segundo ponto é o teor do que teria sido levado. Em julho de 1934, numa entrevista coletiva de aniversário no salão do próprio hotel, Tesla anunciou um feixe de partículas capaz de derrubar aviões a centenas de quilômetros de distância. Ele batizou o aparelho de teleforce.

Em 1937 escreveu um texto técnico sobre o mesmo princípio e passou a oferecer o projeto a governos estrangeiros. Quem repete a teoria trata esses papéis como um projeto acabado, e trata a apreensão como a prova de que ele estava pronto.

O terceiro ponto é a jurisdição. Tesla era cidadão americano naturalizado desde 30 de julho de 1891, com papel registrado num tribunal de Nova York. O órgão que recolheu os baús existia para cuidar de bem de estrangeiro.

A conclusão que a teoria tira do detalhe é direta: se o governo passou por cima da própria regra, é porque havia no quarto algo que valia o atropelo.

Várias centenas de páginas, parte delas marcada com a palavra Governo, que ninguém mais viu depois daquela semana.

Dois anos depois a história ganhou um capítulo militar. Em agosto de 1945, um soldado chamado Bloyce Fitzgerald, que tinha convivido com o inventor no fim da vida dele, pediu ao Exército acesso ao material guardado no depósito.

O pedido é documentado e alimenta a leitura de que o laudo tranquilizador de 1943 não encerrou o interesse oficial pelas caixas.

O fecho da teoria é a energia. Segundo ela, o que ficou trancado no depósito não foi o feixe de partículas, e sim um método de captar eletricidade do próprio ambiente, capaz de tornar a conta de luz obsoleta e de incomodar quem vendia luz.

O desenho é fechado por construção, e a construção é a força dele. Um laudo que nega vira laudo encomendado. Um arquivo liberado vira arquivo higienizado. Um baú devolvido vira baú escolhido a dedo.

Falta a certidão de nascimento: em que ano alguém escreveu, pela primeira vez, que a energia livre tinha sido enterrada junto com Tesla.

 
 

II  A Origem

O livro impresso em tinta verde

A apreensão é de janeiro de 1943, mas a tese da energia livre enterrada com Tesla só aparece impressa dezesseis anos depois, num livro que a autora bancou do próprio bolso e mandou rodar inteiro em tinta verde.

Em 1943 ninguém falava em energia gratuita. Os jornais americanos noticiaram a apreensão como assunto de guerra, ligada ao feixe de partículas que o inventor vinha oferecendo desde 1934. O próprio sobrinho brigou pelos baús como herança de família, e não como tecnologia sequestrada.

O funeral encheu a Catedral de São João, o Divino, em 12 de janeiro, com cerca de duas mil pessoas. Depois a imprensa passou para outros assuntos e o depósito ficou onde estava, com o lacre no lugar e a conta do armazenamento correndo.

A virada veio de um endereço improvável. Em 1959, uma escritora de Baltimore chamada Margaret Storm publicou por conta própria um volume de mais de trezentas páginas com o título Return of the Dove.

O livro sustenta que Tesla nasceu a bordo de uma nave, foi entregue a um casal sérvio em 1856 e trouxe para a Terra uma tecnologia que a indústria elétrica tratou de sufocar. A autora dizia receber as informações por um aparelho de comunicação interplanetária.

A tinta verde não é lenda de colecionador. A primeira edição saiu inteira nessa cor, e é por ela que os exemplares continuam sendo identificados no mercado de livro usado.

Foi ali que as duas peças se encaixaram pela primeira vez. A apreensão real de 1943 virou o desfecho de uma história de supressão, e o que o governo teria levado deixou de ser uma arma para virar a fonte de energia gratuita.

O engenheiro canadense Arthur H. Matthews, que dizia ter convivido com o inventor, publicou nos anos seguintes um livro na mesma linha, com nave venusiana e um aparelho de comunicação batizado de Teslascope.

Os anos 1970 e 1980 profissionalizaram o material. Editoras pequenas remontaram os textos, catálogos de venda por correspondência ofereciam esquemas de aparelhos atribuídos ao inventor, e o nome dele virou selo de qualidade para qualquer projeto de motor que não fechava a conta.

A teoria não nasceu no depósito de Manhattan. Nasceu numa gráfica de Baltimore, dezesseis anos depois do lacre.

De 1959 em diante o caso ganhou público, catálogo e prateleira fixa. Falta explicar por que ele continua rendendo mais de oitenta anos depois daquela semana de janeiro.

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III  O Combustível

A caixa do Hotel Governor Clinton

A teoria queima até hoje por um motivo incômodo: a parte que soa mais absurda é a verdadeira. O governo americano recolheu os pertences de um cidadão americano usando um órgão criado para bem de estrangeiro, e levou anos para devolver.

O que não se sustenta é a etapa seguinte, a de que dentro dos baús havia uma máquina pronta. Quem abriu as caixas deixou registro escrito, com data e assinatura.

Em 26 e 27 de janeiro de 1943, John G. Trump, professor de engenharia elétrica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e assessor técnico do comitê de pesquisa de defesa, foi ao depósito acompanhado de oficiais da Marinha e passou o material em revista.

O laudo: Trump concluiu que o trabalho dos últimos quinze anos do inventor tinha caráter especulativo, filosófico e em boa medida promocional, voltado à produção e à transmissão de energia sem fio, e que não continha princípios novos, sólidos e aplicáveis para chegar a esses resultados. Fonte: relatório de John G. Trump ao Escritório de Custódia de Bens Estrangeiros, janeiro de 1943, no arquivo do FBI liberado em 2016.

A caixa: Tesla tinha deixado no cofre do Hotel Governor Clinton um pacote lacrado, apresentado como aparelho de grande valor e com aviso de perigo caso fosse aberto por leigo. Trump pediu a abertura diante de testemunhas e encontrou uma caixa de resistências do tipo usado em ponte de Wheatstone, instrumento comum de laboratório fabricado antes de 1900. Fonte: o mesmo relatório.

O acervo: o espólio foi liberado ao sobrinho e embarcou para a Iugoslávia em setembro de 1951, em sessenta volumes entre malas, baús de metal e barris. O Museu Nikola Tesla foi criado em Belgrado em 5 de dezembro de 1952 e abriu ao público em 20 de outubro de 1955. O acervo reúne mais de 160 mil documentos e mais de mil plantas e desenhos, catalogados e acessíveis a pesquisador. Fonte: Museu Nikola Tesla, Belgrado.

Sobre a energia livre, o problema é anterior ao arquivo. O que Tesla perseguia em Colorado Springs, em 1899, e depois na torre de Wardenclyffe, erguida em Long Island a partir de 1901 com 150 mil dólares de J. P. Morgan, era transmissão de eletricidade sem fio.

Transmitir não é gerar. O projeto de Wardenclyffe previa uma usina alimentando o transmissor, e a torre foi vendida como sucata em 1917 porque o dinheiro acabou antes de a demonstração funcionar.

Enquanto o processo andava devagar, a pergunta em aberto virou mercado. Livro de garagem virou catálogo, o catálogo virou editora, a editora virou documentário de canal a cabo, e em 2018 uma série de televisão americana gastou uma temporada inteira atrás de papéis que já estavam catalogados em Belgrado.

O arquivo do FBI foi liberado em 2016 e o catálogo dos escritos apreendidos saiu dois anos depois. Nenhum dos dois trouxe planta de gerador, e nenhum dos dois derrubou a teoria, porque quem acredita já tinha um lugar reservado para o documento que aparecesse.

O lacre federal existiu e o laudo também. A energia livre é a única peça da história que nunca teve baú.

"Quantas vezes você tratou um documento guardado a sete chaves como prova do que estava escrito dentro dele?"

 
 
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No fim de janeiro de 1943, quem foi levado ao depósito da Manhattan Storage para examinar o conteúdo dos baús de Tesla e passou dois dias entre as pastas?

ASava Kosanović, sobrinho diplomata de Tesla
BBloyce Fitzgerald, soldado que conviveu com o inventor
CJohn G. Trump, professor de engenharia elétrica do MIT
DMargaret Storm, escritora de Baltimore

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