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A teoria queima até hoje por um motivo incômodo: a parte que soa mais absurda é a verdadeira. O governo americano recolheu os pertences de um cidadão americano usando um órgão criado para bem de estrangeiro, e levou anos para devolver.
O que não se sustenta é a etapa seguinte, a de que dentro dos baús havia uma máquina pronta. Quem abriu as caixas deixou registro escrito, com data e assinatura.
Em 26 e 27 de janeiro de 1943, John G. Trump, professor de engenharia elétrica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e assessor técnico do comitê de pesquisa de defesa, foi ao depósito acompanhado de oficiais da Marinha e passou o material em revista.
O laudo: Trump concluiu que o trabalho dos últimos quinze anos do inventor tinha caráter especulativo, filosófico e em boa medida promocional, voltado à produção e à transmissão de energia sem fio, e que não continha princípios novos, sólidos e aplicáveis para chegar a esses resultados. Fonte: relatório de John G. Trump ao Escritório de Custódia de Bens Estrangeiros, janeiro de 1943, no arquivo do FBI liberado em 2016.
A caixa: Tesla tinha deixado no cofre do Hotel Governor Clinton um pacote lacrado, apresentado como aparelho de grande valor e com aviso de perigo caso fosse aberto por leigo. Trump pediu a abertura diante de testemunhas e encontrou uma caixa de resistências do tipo usado em ponte de Wheatstone, instrumento comum de laboratório fabricado antes de 1900. Fonte: o mesmo relatório.
O acervo: o espólio foi liberado ao sobrinho e embarcou para a Iugoslávia em setembro de 1951, em sessenta volumes entre malas, baús de metal e barris. O Museu Nikola Tesla foi criado em Belgrado em 5 de dezembro de 1952 e abriu ao público em 20 de outubro de 1955. O acervo reúne mais de 160 mil documentos e mais de mil plantas e desenhos, catalogados e acessíveis a pesquisador. Fonte: Museu Nikola Tesla, Belgrado.
Sobre a energia livre, o problema é anterior ao arquivo. O que Tesla perseguia em Colorado Springs, em 1899, e depois na torre de Wardenclyffe, erguida em Long Island a partir de 1901 com 150 mil dólares de J. P. Morgan, era transmissão de eletricidade sem fio.
Transmitir não é gerar. O projeto de Wardenclyffe previa uma usina alimentando o transmissor, e a torre foi vendida como sucata em 1917 porque o dinheiro acabou antes de a demonstração funcionar.
Enquanto o processo andava devagar, a pergunta em aberto virou mercado. Livro de garagem virou catálogo, o catálogo virou editora, a editora virou documentário de canal a cabo, e em 2018 uma série de televisão americana gastou uma temporada inteira atrás de papéis que já estavam catalogados em Belgrado.
O arquivo do FBI foi liberado em 2016 e o catálogo dos escritos apreendidos saiu dois anos depois. Nenhum dos dois trouxe planta de gerador, e nenhum dos dois derrubou a teoria, porque quem acredita já tinha um lugar reservado para o documento que aparecesse.
O lacre federal existiu e o laudo também. A energia livre é a única peça da história que nunca teve baú.
"Quantas vezes você tratou um documento guardado a sete chaves como prova do que estava escrito dentro dele?"
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