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Os dentes guardados em Moscou tiram Hitler de Bariloche

Um livro de 2011 pôs o ditador vivo na Patagônia. Relatos de 1945 ao FBI e um laudo francês de 2018 contam outra história.

Casarão de madeira à beira do lago Nahuel Huapi, na Patagônia argentina.

Lago Nahuel Huapi, perto de Bariloche

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“Grey Wolf: The Escape of Adolf Hitler” (Lobo Cinzento: a fuga de Adolf Hitler), anunciou a editora americana Sterling na capa do lançamento de 2011. O jornalista britânico Gerrard Williams e o escritor Simon Dunstan prometiam provar que o ditador alemão não se matou em Berlim.

Segundo os dois autores, Hitler viveu mais 17 anos na Patagônia argentina. Morou primeiro numa estância perto de Bariloche, cidade de chalés de madeira aos pés dos Andes, e depois numa casa à beira do lago Nahuel Huapi, cercada de bosque.

O cenário ajuda a história. Bariloche recebeu imigrantes de língua alemã no começo do século XX, tem escola alemã, chocolatarias de fachada alpina e um passado real de abrigo a criminosos nazistas. Para quem lê o livro, a paisagem já parece confirmar a tese.

O casal, ainda segundo Williams e Dunstan, teve duas filhas. Eva Braun teria se separado dele nos anos 1950, e Hitler teria morrido em fevereiro de 1962, aos 72 anos, velho e esquecido. Nenhuma das filhas foi localizada, e nenhuma certidão sustenta a data.

Em 2014 o livro virou documentário de mesmo título, e séries de televisão sobre a caça a Hitler espalharam a versão. O jornalista argentino Abel Basti, que publica livros sobre o tema desde 2004, acusou a dupla de copiar a pesquisa dele. A disputa de autoria entre os três rendeu mais entrevistas do que qualquer prova nova sobre o fugitivo.

Contra a versão de Grey Wolf existem três peças de arquivo. Relatos de 1945 guardados pelo FBI, a polícia federal americana, que nunca acharam o fugitivo. Restos humanos levados pelos soviéticos de Berlim para Moscou. E um laudo de 2018 assinado pelo médico-legista francês Philippe Charlier.

Cada peça responde a uma etapa da fuga. A primeira etapa é a rota descrita no livro, do abrigo de Berlim até a costa argentina.

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I  A Conspiração do Dia

A rota do submarino

A fuga narrada em Grey Wolf começa no Führerbunker (o abrigo subterrâneo de Hitler em Berlim) no dia 28 de abril de 1945. Adolf Hitler e Eva Braun teriam saído por túneis, deixado dois sósias no lugar e embarcado num avião rumo à Espanha de Francisco Franco.

O livro não apresenta documento assinado, foto datada ou testemunha identificada que ponha Hitler vivo depois de 30 de abril de 1945. A rota inteira se apoia em relatos de terceiros, colhidos décadas depois.

Da Espanha, segundo os autores, o casal seguiu num U-boat (submarino alemão) até o litoral da província de Buenos Aires. O desembarque teria ocorrido perto de Necochea, numa praia deserta, em meados de 1945.

Os submarinos de Mar del Plata

Dois submarinos alemães apareceram de fato na Argentina depois da rendição. O U-530 entrou no porto de Mar del Plata no dia 10 de julho de 1945, e o U-977 chegou ao mesmo porto em 17 de agosto.

A Marinha argentina e oficiais americanos interrogaram as duas tripulações. Nenhum dos dois submarinos levava passageiro civil, e os interrogatórios não acharam sinal de Hitler a bordo.

O comandante do U-977, Heinz Schäffer, navegou cerca de dois meses quase sempre submerso para não se render aos Aliados. Ele contou a viagem no livro U-Boat 977, de 1952, e negou ter levado qualquer fugitivo. Os registros de interrogatório, hoje em arquivos navais argentinos e americanos, listam só marinheiros alemães com nome, patente e função a bordo.

A casa do lago

A segunda morada de Grey Wolf é a estância Inalco, em Villa La Angostura, na margem norte do lago Nahuel Huapi. O casarão de estilo alpino existe e virou parada de turistas atraídos pela lenda.

A ligação com Hitler vem de moradores que, já idosos, contaram ter visto um homem parecido com ele na região. Nenhum relato traz data, foto ou documento de compra, aluguel ou visita.

As filhas e a data

As duas filhas e a data de 1962 vêm da mesma fonte: entrevistas sem gravação pública e personagens identificados só pelo primeiro nome. Os autores defendem que o medo de represália calou testemunhas por décadas.

O historiador britânico Richard Evans, da Universidade de Cambridge, examinou a fuga no livro The Hitler Conspiracies (As conspirações de Hitler), de 2020. Ele classifica Grey Wolf como fantasia sem fonte primária, construída sobre boatos repetidos.

 
 

II  A Origem

Os relatos de 1945

A suspeita de fuga nasceu antes do livro, na própria Berlim de 1945. A cidade se rendeu ao Exército Vermelho em 2 de maio, e a SMERSH (a contraespionagem militar soviética) achou corpos queimados no jardim do abrigo poucos dias depois.

Josef Stalin sabia dos corpos e mesmo assim espalhou a dúvida. Na Conferência de Potsdam, no verão europeu de 1945, disse aos americanos que Hitler podia estar vivo, na Espanha ou na Argentina.

O relato saiu em Speaking Frankly (Falando francamente), livro de memórias de 1947 do secretário de Estado americano James Byrnes. A versão soviética oficial também oscilou: o marechal Georgy Zhukov declarou à imprensa em junho de 1945 que o corpo não tinha sido identificado com certeza.

As cartas ao FBI

Do outro lado do Atlântico, o FBI recebeu uma enxurrada de cartas com avistamentos. Hitler teria sido visto num bar, num trem, numa barbearia da Califórnia. A agência arquivou as denúncias, e parte delas saiu ao público décadas depois, no The Vault (O Cofre), o arquivo digital do FBI.

O documento mais citado vem de Los Angeles, em setembro de 1945. Um informante contou a um agente que Hitler tinha desembarcado de submarino na Argentina e se escondia num rancho ao pé dos Andes, com ajuda de ministros argentinos.

O memorando registra o que o informante disse, sem confirmar nada. Nenhuma das denúncias guardadas no arquivo terminou em prisão, foto ou identificação, e o FBI nunca enviou agentes à Patagônia atrás do ditador.

O que os soviéticos guardaram

Enquanto Moscou alimentava a dúvida em público, a SMERSH montava o dossiê por dentro. Os investigadores mostraram uma mandíbula e pontes dentárias a Käthe Heusermann, assistente do dentista de Hitler, Hugo Blaschke, e ela reconheceu o trabalho em maio de 1945.

Os corpos foram enterrados e desenterrados várias vezes. A partir de 1946 ficaram sob o pátio de um quartel soviético em Magdeburgo, na Alemanha Oriental.

Os dentes e um fragmento de crânio com furo de bala seguiram para arquivos em Moscou. Ficaram fechados ao público até o final da Guerra Fria, e o silêncio deixou a pergunta da fuga aberta por meio século.

 

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III  O Combustível

Os dentes de Moscou

A lenda de Bariloche ganha força porque Bariloche abrigou nazistas de verdade. Erich Priebke, oficial da SS (a tropa de elite do partido nazista) envolvido no massacre das Fossas Ardeatinas, em Roma, viveu na cidade por quase cinco décadas e dirigiu a associação da escola alemã local.

As rotas de fuga de nazistas para a América do Sul existiram e estão documentadas. Elas provam que criminosos de guerra escaparam, e nada dizem sobre Hitler.

Em 1994, o repórter Sam Donaldson, da rede americana ABC, abordou Priebke na rua, e a Argentina o extraditou para a Itália em 1995. Adolf Eichmann, um dos organizadores do Holocausto, foi capturado em Buenos Aires pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, em 1960. Josef Mengele, o médico de Auschwitz, se afogou em Bertioga, no litoral paulista, em 1979.

O laudo de 2018

Em 2017, o governo russo autorizou uma equipe francesa a examinar o material. O médico-legista Philippe Charlier, da Universidade de Versailles, viu os dentes no arquivo do FSB (o serviço de segurança russo, herdeiro da KGB) e o fragmento de crânio no Arquivo Estatal da Federação Russa.

O estudo saiu em maio de 2018 na revista European Journal of Internal Medicine. A equipe comparou os dentes com radiografias do crânio de Hitler feitas em 1944 e com as descrições de Heusermann. As pontes, as coroas e o desgaste coincidiam.

Os dentes não tinham resto de fibra de carne, compatível com a dieta vegetariana do ditador. Havia depósitos azulados nas próteses de metal, que podem indicar reação química com cianeto. A equipe não fez teste de DNA, para não destruir a amostra.

“Os dentes são autênticos, não há dúvida possível. Nosso estudo prova que Hitler morreu em 1945.” Philippe Charlier, entrevista à agência AFP, 2018.

O crânio de outra pessoa

O fragmento de crânio teve outro desfecho. Em 2009, o arqueólogo americano Nick Bellantoni, da Universidade de Connecticut, analisou o DNA do osso e concluiu que pertencia a uma mulher. Charlier não pôde coletar amostra e baseou a identificação só nos dentes.

Os dentes fecham a lacuna de Grey Wolf: Hitler morreu no abrigo de Berlim em 30 de abril de 1945, e a mandíbula dele ficou em Moscou, não em Bariloche.

Confira sozinho, em 3 buscas:

• o artigo de Philippe Charlier no European Journal of Internal Medicine, de maio de 2018;

• os arquivos sobre Hitler no The Vault, o arquivo digital do FBI;

• a chegada do U-977 a Mar del Plata, em 17 de agosto de 1945, nos jornais argentinos.

Os dentes viajaram para Moscou, e o resto dos corpos ficou sob o pátio alemão até 1970.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que destino a KGB deu aos corpos enterrados no quartel soviético de Magdeburgo?

 
 
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Qual data o submarino alemão U-530 entrou no porto de Mar del Plata, na Argentina?

A17 de agosto de 1945
B10 de julho de 1945
C2 de maio de 1945
D28 de abril de 1945

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