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ED 027

Os oito que arrombaram o FBI e nunca foram identificados

Na noite de 8 de março de 1971, um escritório do FBI na Pensilvânia foi esvaziado e mil documentos saíram pelo correio.

Escritório pequeno de repartição federal americana nos anos 1970 com arquivos de aço abertos e papéis espalhados.

Media, Pensilvânia, março de 1971

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Na noite de 8 de março de 1971, o rádio e a televisão dos Estados Unidos estavam ocupados com a mesma transmissão: a luta entre Muhammad Ali e Joe Frazier, no Madison Square Garden, vendida como o combate do século. Em Media, cidade pequena do condado de Delaware, na Pensilvânia, o prédio de escritórios em frente ao fórum ficou quase vazio. No segundo andar funcionava uma agência regional do FBI, sem alarme, sem guarda noturno, com porta de madeira e duas fechaduras.

Um grupo de oito pessoas entrou por ali enquanto o país contava os rounds. Nenhuma delas era ladrão profissional. Havia professor de física, assistente social, motorista de táxi, gente de igreja e de comitê de paz, que tinha passado meses vigiando o prédio, cronometrando ronda de polícia e desenhando a planta de memória. Uma fechadura extra, instalada pouco antes, atrasou o serviço e quase derrubou o plano. Resolvida a porta, o resto foi rápido.

Ninguém procurou dinheiro, arma ou equipamento. As malas foram enchidas com papel: cerca de mil documentos tirados dos arquivos de rotina daquele escritório, relatório de campo, memorando interno, circular assinada pela direção e lista de gente sob vigilância. O grupo saiu antes de a luta acabar e passou os dias seguintes numa casa de fazenda alugada, lendo folha por folha o que tinha levado.

O passo seguinte foi o correio. Envelopes pardos com fotocópias começaram a chegar em redações e gabinetes do Congresso. Parte dos destinatários devolveu o pacote ao FBI sem abrir a discussão pública. Uma repórter do jornal de Washington leu tudo, checou documento por documento e publicou a primeira reportagem duas semanas e meia depois do arrombamento, com o país já sabendo que o roubo tinha acontecido, mas não o que estava dentro das malas.

Em uma daquelas folhas, num canto de cabeçalho de rotina, aparecia uma palavra em letra maiúscula que nem os jornalistas que receberam o pacote conseguiram explicar. Ela levaria mais dois anos para ganhar significado público, e é dela que sai a tese que atravessa o caso inteiro.

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I  A Conspiração do Dia

Mil documentos e nenhum indiciado

A tese diz que o FBI identificou pelo menos parte dos oito ainda nos primeiros meses de investigação e escolheu não prender ninguém, porque qualquer julgamento público obrigaria a explicar em tribunal, sob juramento, o que era o programa que aqueles documentos revelavam.

O primeiro argumento é o tamanho da caçada. A investigação recebeu nome próprio, MEDBURG, mobilizou mais de duzentos agentes em campo, varreu comunidade religiosa, campus universitário e grupo pacifista da região da Filadélfia e ficou aberta durante cinco anos. Terminou sem uma única acusação formal.

O segundo argumento é a proximidade. Semanas antes do arrombamento, uma integrante do grupo entrou no escritório de Media se apresentando como estudante que pesquisava oportunidade de carreira para mulheres na agência, e conversou com o agente responsável. A descrição física dela circulou depois na investigação, e agentes chegaram a bater na porta da casa certa, na Filadélfia, para uma entrevista de rotina. O assunto morreu ali.

O terceiro argumento é o custo processual. Levar oito réus a júri significaria abrir a fase de produção de provas, com defesa autorizada a pedir ao próprio FBI os originais dos documentos furtados e a chamar dirigentes da agência para depor sobre o que aqueles papéis descreviam.

Se o material era só papel administrativo sem importância, por que a agência gastou cinco anos e duzentos agentes atrás de gente que não levou um centavo do cofre?

O que a tese cobra da defesa: explicar como uma agência que rastreava estudante por assinatura de jornal e por presença em passeata não conseguiu fechar o cerco em torno de oito pessoas que moravam a menos de trinta quilômetros do escritório arrombado.

Há a questão do calendário. O prazo de prescrição para o crime terminou em 1976, e a investigação foi encerrada pouco depois. Quem defende a tese lê a data como alívio programado, e não como fracasso de trabalho policial.

Há a questão do silêncio dos oito. O grupo se dispersou, cada um voltou para a própria vida, e ninguém falou por mais de quatro décadas. Só em 2014 cinco deles apareceram em público, com o crime já prescrito e a maior parte dos envolvidos na casa dos setenta anos.

A tese depende de mostrar que a agência tinha nome e endereço antes da prescrição, e não apenas suspeita difusa sobre um meio social inteiro. Falta reconstruir como oito civis chegaram à conclusão de que arrombar uma repartição federal era o único caminho.

 
 

II  A Origem

A noite da luta do século em Media

A origem tem data, cidade e um pretexto sonoro. Em 8 de março de 1971, o escritório do FBI em Media foi esvaziado por um grupo que se batizou de Comissão de Cidadãos para Investigar o FBI, e o barulho da luta de boxe entrou no plano como cobertura sonora para o trabalho de arrombamento.

O primeiro fio é a frustração com o caminho legal. Desde o fim dos anos 1960, grupos contra a guerra do Vietnã reclamavam de infiltração, telefone grampeado e prisão preventiva sem processo. Pedidos de investigação no Congresso esbarravam na mesma resposta: sem documento oficial, nada disso passava de queixa de militante.

O segundo fio é a escolha do alvo. Um professor de física da Universidade Haverford reuniu o grupo e defendeu que a prova só sairia de dentro de um arquivo do próprio FBI. Escritório central estava fora de cogitação, com cofre, alarme e vigilância. Media entrava no perfil oposto: agência regional pequena, num prédio comercial comum, com estacionamento e escada abertos.

O terceiro fio é a preparação. O grupo montou vigilância de meses, anotou horário de entrada e saída de funcionário, mapeou ronda da polícia local e treinou arrombamento de fechadura em porta idêntica. A visita disfarçada de estudante rendeu a planta interna do escritório e a informação de que não havia sistema de alarme.

"Eles não estavam procurando prova de que o FBI investigava crime. Estavam procurando prova de que o FBI investigava cidadãos por causa das ideias que eles tinham."

Betty Medsger, The Burglary: The Discovery of J. Edgar Hoover's Secret FBI, 2014.

O quarto fio é a triagem na fazenda. Com os arquivos espalhados no chão de uma casa alugada no interior da Pensilvânia, o grupo separou o que era administração de rotina do que descrevia vigilância política, e decidiu não divulgar material ligado a investigação criminal comum, para não atrapalhar caso de sequestro ou de fraude em andamento.

O quinto fio é a distribuição. Cópias saíram pelo correio para jornais de grande circulação e para dois parlamentares. Um senador e um deputado devolveram o pacote à agência sem abrir o conteúdo à imprensa. A primeira reportagem detalhada saiu em 24 de março de 1971, contra pedido expresso do procurador-geral para que nada fosse publicado.

O detalhe que mudou o debate foi a contagem. Ao classificar tema por tema o que tinha sido levado, ficou registrado que cerca de 40 por cento do material tratava de vigilância política, contra algo em torno de 1 por cento dedicado a crime organizado, numa agência que se apresentava ao público como polícia federal contra gangue e sequestro.

Falta a parte que transformou um caso de arrombamento em assunto permanente, e ela cabe numa única palavra impressa no cabeçalho de uma das folhas.

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III  O Combustível

A palavra que ninguém sabia explicar

A tese resiste porque a palavra existia mesmo e ninguém de fora sabia o que ela significava. Num dos documentos aparecia a instrução de que determinada ação fazia parte de um COINTELPRO, escrito assim, em maiúscula, sem qualquer explicação no corpo do texto. Repórter, editor e parlamentar leram, anotaram e ficaram no escuro.

O que exige cuidado é o salto seguinte, o de tratar cada capítulo posterior da história como parte do mesmo plano. A conclusão firme cabe numa linha: o arrombamento entregou a palavra, e o significado dela só saiu por via judicial, dois anos depois.

O que está documentado: um repórter de televisão notou o termo, entrou com pedido de acesso a documentos em 1972 amparado na lei de liberdade de informação, processou a agência quando o pedido foi negado e obteve, em 1973, os papéis que descreviam a sigla como abreviação de programa de contrainteligência, ativo desde 1956 e formalmente encerrado em abril de 1971, um mês depois de Media.

O que a defesa da tese sustenta: que o encerramento formal do programa poucas semanas depois do arrombamento não é coincidência de calendário, e sim reconhecimento interno de que o arquivo tinha vazado e que manter o carimbo em documento novo viraria prova contra a própria agência.

O que continua em disputa: se as práticas descritas pararam junto com a sigla ou se apenas perderam o nome, questão que voltou a cada nova revelação de vigilância de movimento político nas décadas seguintes.

Os números que costumam circular no assunto, com a origem de cada um:

·  Arrombamento do escritório do FBI em Media: 8 de março de 1971
·  Documentos retirados dos arquivos: cerca de mil
·  Primeira reportagem detalhada na imprensa: 24 de março de 1971
·  Período de atividade do programa revelado: 1956 a 1971
·  Ano em que parte do grupo se identificou: 2014

O ponto mais frágil da versão popular é a ideia de que uma noite derrubou o programa. O trabalho de comissão parlamentar que detalhou abuso de vigilância só veio em 1975, com quatro anos de imprensa, processo judicial e depoimento no meio do caminho.

Há também a confusão entre revelação e reforma. A lei que reorganizou autorização de escuta e criou controle judicial sobre vigilância interna levou o resto da década para sair, e boa parte do que o arquivo mostrou nunca gerou responsabilização individual.

E existe o efeito do anonimato prolongado. Enquanto ninguém assumiu a autoria, cada leitor imaginou o autor que preferisse, do agente insatisfeito ao serviço rival, e a versão improvável circulou com a força da simples.

Então por que a suspeita continua de pé mais de cinquenta anos depois? Porque a parte mais improvável dela já é fato registrado. Oito civis desarmados esvaziaram um escritório de polícia federal, distribuíram o conteúdo pelo correio e nunca foram indiciados, e depois de uma frase dessas qualquer capítulo seguinte soa plausível por comparação.

O caso de Media é o exemplo raro em que a prova documental chegou ao público antes de qualquer investigação oficial. O arquivo saiu pela porta, virou reportagem e obrigou o Estado a explicar uma palavra que ele mesmo tinha inventado, e a lição que ficou no imaginário foi a de que a versão oficial começa a mudar quando o papel some da gaveta.

"Quando a prova de um abuso só aparece por um crime, o que pesa mais na sua conta?"

 
 
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Ao separar os documentos roubados do escritório do FBI em Media por tema, qual proporção o grupo encontrou?

A70% vigilância política contra 5% de crime organizado
B40% vigilância política contra 1% de crime organizado
C1% vigilância política contra 40% de crime organizado
D25% vigilância política contra 10% de crime organizado

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