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Peter Buxtun contra o estudo de Tuskegee

Em 1972, um ex-funcionário do Serviço de Saúde Pública levou à imprensa os papéis de 40 anos de sífilis sem tratamento no Alabama.

Pasta de relatórios médicos sob a luz de um abajur

Relatórios médicos sob a luz do abajur

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O New York Times publicou na primeira página de 26 de julho de 1972 a manchete “Syphilis Victims in U.S. Study Went Untreated for 40 Years” (Vítimas de sífilis em estudo do governo americano ficaram 40 anos sem tratamento). Os documentos por trás do texto tinham saído das mãos de Peter Buxtun, ex-funcionário do próprio governo em San Francisco.

A reportagem vinha da Associated Press, a agência que vende notícias a jornais do país inteiro. A repórter Jean Heller, de Washington, tinha distribuído o texto aos clientes na véspera, 25 de julho, e o Washington Star o imprimiu no mesmo dia.

O conteúdo cabia em poucas linhas. Desde 1932, o Serviço de Saúde Pública, o órgão federal de saúde americano, acompanhava quase 400 homens negros com sífilis no condado de Macon, no Alabama, para registrar, exame após exame, o que a doença fazia com o corpo sem remédio.

Os homens não sabiam o diagnóstico. A penicilina, que curava a sífilis desde a década de 1940, nunca foi oferecida a eles, e o acompanhamento seguia firme em 1972, com exames de sangue periódicos e autópsia dos que morriam.

Quando a notícia saiu, o estudo ainda estava em andamento. Parte dos homens seguia viva no interior do Alabama, sem conhecer o nome da doença que carregava havia quatro décadas, e algumas esposas e filhos já tinham sido contaminados.

Nas comunidades negras do Sul, a desconfiança contra médicos brancos era antiga, passada de avó para neto, e quem a repetia costumava ouvir que era superstição de gente sem estudo. A partir da reportagem, a desconfiança tinha papel timbrado, assinatura de médico e data.

O caminho até a manchete começou seis anos antes, numa repartição de San Francisco, quando um funcionário pago para achar casos de sífilis e mandar tratá-los descobriu que o próprio patrão mantinha centenas de doentes sem remédio, e resolveu não guardar a descoberta para si.

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I  A Conspiração do Dia

Seis anos de cartas para Atlanta

Peter Buxtun nasceu em Praga em 1937 e chegou criança aos Estados Unidos, em 1939, com a família que deixava a Tchecoslováquia ocupada pela Alemanha nazista. Cresceu no Oregon e, em 1965, entrou no Serviço de Saúde Pública em San Francisco.

O cargo tinha nome comprido: entrevistador e investigador de doenças venéreas. Na prática, ele conversava com pacientes de sífilis e gonorreia, descobria com quem tinham se deitado e ia atrás dessas pessoas para que também recebessem tratamento.

Em 1966, numa conversa de escritório, Buxtun ouviu colegas comentarem a bronca que um médico tinha levado dos superiores. O erro dele foi dar penicilina a um paciente com sífilis que fazia parte de um estudo do serviço.

Ele foi atrás dos relatórios. Neles, a regra aparecia sem disfarce: os homens de Macon não podiam receber remédio, porque a pesquisa queria acompanhar a doença até a autópsia.

As cartas e a reunião

Em novembro de 1966, Buxtun escreveu a William J. Brown, chefe da área de doenças venéreas do Centro de Doenças Transmissíveis, a unidade do serviço em Atlanta. Na carta, comparou o estudo aos experimentos dos médicos nazistas julgados no Tribunal de Nuremberg, em 1947.

A resposta veio como convocação. Meses depois, Buxtun foi chamado a Atlanta para uma reunião com médicos do órgão. No relato que fez anos mais tarde, um deles, John Cutler, passou o encontro a repreendê-lo e a defender o valor científico dos dados.

Buxtun voltou a escrever em 1968, depois do assassinato de Martin Luther King Jr. Trocou o argumento moral pelo político: com o país em revolta racial, um estudo que deixava homens negros sem cura podia estourar nas mãos do governo.

Em 1969, um painel convocado pelo centro de Atlanta ouviu o alerta e decidiu manter o estudo, sem tratar os homens.

O painel justificou a decisão em duas partes. Tratar homens idosos, com a doença avançada, traria mais risco do que ganho, e os dados ainda tinham valor para a medicina.

A amiga da agência

Em 1972, já fora do serviço, Buxtun entregou os papéis a uma amiga, Edith Lederer, repórter da Associated Press em San Francisco. Ela levou o caso aos editores, e a agência pôs Jean Heller, em Washington, para apurar.

Heller procurou o próprio governo antes de publicar. O centro de Atlanta, já rebatizado de Centro de Controle de Doenças, confirmou o estudo, e a reportagem saiu com a confirmação oficial dentro.

 
 

II  A Origem

Sangue ruim no condado de Macon

A raiz do estudo é anterior à penicilina. No começo da Grande Depressão, o Fundo Julius Rosenwald, entidade filantrópica de Chicago, bancou com o Serviço de Saúde Pública um programa para testar e tratar sífilis em condados rurais do Sul.

No condado de Macon, o levantamento do Fundo Rosenwald, feito entre 1929 e 1931, encontrou sífilis em mais de um terço dos moradores testados. Com a crise apertando, o fundo cortou o dinheiro, e o tratamento parou.

Taliaferro Clark, chefe da divisão de doenças venéreas do serviço, viu ali uma chance. Em 1932, propôs acompanhar por seis meses a um ano os infectados de Macon, sem tratá-los, e comparar o resultado com um estudo de Oslo, na Noruega, feito com pacientes brancos.

A premissa era racial. Médicos da época acreditavam que a sífilis agia de outro jeito no corpo de um homem negro, e Macon oferecia, sem gasto com remédio, os doentes para testar a tese.

Ainda em 1932, o serviço recrutou 600 homens: 399 com sífilis latente (a fase em que a doença some da pele e segue agindo por dentro) e 201 sem a doença, como grupo de comparação. Quase todos eram meeiros, lavradores que pagavam o aluguel da terra com parte da colheita.

O convite de porta em porta

Ninguém ouviu a palavra sífilis. Os médicos diziam tratar “bad blood” (sangue ruim), expressão local para um saco de males que ia da anemia ao cansaço. Em troca, os homens ganhavam exame grátis, refeição nos dias de consulta e carona até a clínica.

Quem dirigia o carro era Eunice Rivers, enfermeira negra formada em Tuskegee. Ela acompanhou os homens durante as quatro décadas do estudo e conhecia as famílias pelo nome.

Para tirar líquido da espinha, a equipe precisava de punções lombares (a agulha enfiada entre as vértebras), exame doloroso que só servia à pesquisa. A convocação mandada aos homens chamava o procedimento de remédio.

“Lembre-se: esta é sua última chance de tratamento especial gratuito”, dizia a carta aos participantes, reproduzida pelo historiador James H. Jones no livro “Bad Blood” (Sangue ruim), de 1981.

Em 1943, um médico do próprio Serviço de Saúde Pública mostrou que a penicilina curava a sífilis.

O médico era John Mahoney, do hospital do serviço em Staten Island, em Nova York. Em poucos anos, a penicilina virou o tratamento padrão no país, e os postos do governo a aplicavam de graça.

Os homens de Macon ficaram de fora. Durante a Segunda Guerra Mundial, o serviço entregou à junta de alistamento local uma lista de participantes, para que os convocados não recebessem o tratamento que o Exército dava aos recrutas com sífilis.

O estudo nunca foi segredo entre médicos. O serviço publicou resultados em revistas de medicina desde 1936, e o Fundo Milbank pagava o enterro dos homens cuja família autorizasse a autópsia.

 

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III  O Combustível

Do boato às audiências do Senado

Muito antes de 1972, famílias negras do Sul contavam histórias de “night doctors” (médicos da noite), homens brancos que sequestravam gente à noite para usar o corpo em experiências. A folclorista Gladys-Marie Fry registrou esses relatos no livro “Night Riders in Black Folk History” (Cavaleiros da noite na história do povo negro), de 1975.

O boato tinha base. Em 1989, uma obra no porão da antiga Faculdade de Medicina da Geórgia, em Augusta, achou ossos de corpos usados nas aulas de anatomia do século 19. O livro “Bones in the Basement” (Ossos no porão), organizado em 1997 por Robert Blakely e Judith Harrington, mostrou que a maioria era de pessoas negras tiradas de cemitérios.

O que os papéis provaram

Os documentos de Tuskegee confirmaram o medo dessas famílias por outro caminho. Os homens de Macon foram convidados de porta em porta, enganados sobre a doença e mantidos longe da cura por decisão escrita.

Depois de 1972, a versão mais repetida do caso foi além dos papéis: diz que o governo injetou sífilis nos homens de Macon. Os relatórios mostram homens que já chegaram infectados ao primeiro exame.

Os papéis de Tuskegee registram homens já doentes, mantidos sem remédio por 40 anos.

A injeção existiu em outro lugar. Em 2010, a historiadora Susan Reverby, do Wellesley College, achou nos arquivos de John Cutler, o médico da reunião de Atlanta, os registros de experimentos na Guatemala, entre 1946 e 1948, em que o serviço infectou de propósito presos, soldados e pacientes psiquiátricos.

Em 2011, a Comissão Presidencial para o Estudo de Questões de Bioética contou cerca de 1.300 pessoas expostas na Guatemala, e o governo americano já tinha pedido desculpas ao país.

As audiências de 1973

O Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar montou um painel independente, presidido por Broadus Butler, reitor da Universidade Dillard, em Nova Orleans. Em outubro de 1972, o grupo recomendou tratar os sobreviventes, e o estudo foi encerrado no mês seguinte.

O Senado entrou no caso no começo de 1973. O senador Edward Kennedy, de Massachusetts, abriu audiências na subcomissão de saúde sobre experiências com seres humanos e chamou Peter Buxtun para depor.

As sessões juntaram Tuskegee a outros casos de pesquisa sem consentimento informado (o aceite do paciente depois de ouvir os riscos). Em 1974, o Congresso aprovou a Lei Nacional de Pesquisa, que exigiu um comitê de ética antes de qualquer estudo com dinheiro federal em seres humanos.

No mesmo ano, o advogado Fred Gray, que tinha defendido Rosa Parks em Montgomery, assinou com o governo um acordo de indenização para os participantes vivos e os herdeiros dos demais. Em 1975, o programa federal criado para cuidar dos sobreviventes estendeu a cobertura a esposas, viúvas e filhos.

“O que foi feito não pode ser desfeito”, disse Bill Clinton, presidente americano, no pedido de desculpas feito na Casa Branca em 16 de maio de 1997, diante de cinco sobreviventes.

Peter Buxtun morreu em 2024, aos 86 anos, na Califórnia.

Confira por conta própria antes de contar o caso de Tuskegee:

• a data da reportagem de Jean Heller na Associated Press, 25 de julho de 1972;

• o ano do teste de John Mahoney com penicilina contra a sífilis, 1943;

• o ano da Lei Nacional de Pesquisa, aprovada pelo Congresso em 1974.

 
 
Quiz da edição

Em 1969, o que o painel convocado pelo centro de Atlanta decidiu fazer depois de ouvir o alerta de Peter Buxtun sobre o estudo de Tuskegee?

AEncerrar o estudo e tratar todos os homens com penicilina
BTransferir os participantes para hospitais em Atlanta
CManter o estudo sem tratar os homens
DAbrir uma investigação do Senado sobre o caso

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