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Muito antes de 1972, famílias negras do Sul contavam histórias de “night doctors” (médicos da noite), homens brancos que sequestravam gente à noite para usar o corpo em experiências. A folclorista Gladys-Marie Fry registrou esses relatos no livro “Night Riders in Black Folk History” (Cavaleiros da noite na história do povo negro), de 1975.
O boato tinha base. Em 1989, uma obra no porão da antiga Faculdade de Medicina da Geórgia, em Augusta, achou ossos de corpos usados nas aulas de anatomia do século 19. O livro “Bones in the Basement” (Ossos no porão), organizado em 1997 por Robert Blakely e Judith Harrington, mostrou que a maioria era de pessoas negras tiradas de cemitérios.
O que os papéis provaram
Os documentos de Tuskegee confirmaram o medo dessas famílias por outro caminho. Os homens de Macon foram convidados de porta em porta, enganados sobre a doença e mantidos longe da cura por decisão escrita.
Depois de 1972, a versão mais repetida do caso foi além dos papéis: diz que o governo injetou sífilis nos homens de Macon. Os relatórios mostram homens que já chegaram infectados ao primeiro exame.
Os papéis de Tuskegee registram homens já doentes, mantidos sem remédio por 40 anos. |
A injeção existiu em outro lugar. Em 2010, a historiadora Susan Reverby, do Wellesley College, achou nos arquivos de John Cutler, o médico da reunião de Atlanta, os registros de experimentos na Guatemala, entre 1946 e 1948, em que o serviço infectou de propósito presos, soldados e pacientes psiquiátricos.
Em 2011, a Comissão Presidencial para o Estudo de Questões de Bioética contou cerca de 1.300 pessoas expostas na Guatemala, e o governo americano já tinha pedido desculpas ao país.
As audiências de 1973
O Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar montou um painel independente, presidido por Broadus Butler, reitor da Universidade Dillard, em Nova Orleans. Em outubro de 1972, o grupo recomendou tratar os sobreviventes, e o estudo foi encerrado no mês seguinte.
O Senado entrou no caso no começo de 1973. O senador Edward Kennedy, de Massachusetts, abriu audiências na subcomissão de saúde sobre experiências com seres humanos e chamou Peter Buxtun para depor.
As sessões juntaram Tuskegee a outros casos de pesquisa sem consentimento informado (o aceite do paciente depois de ouvir os riscos). Em 1974, o Congresso aprovou a Lei Nacional de Pesquisa, que exigiu um comitê de ética antes de qualquer estudo com dinheiro federal em seres humanos.
No mesmo ano, o advogado Fred Gray, que tinha defendido Rosa Parks em Montgomery, assinou com o governo um acordo de indenização para os participantes vivos e os herdeiros dos demais. Em 1975, o programa federal criado para cuidar dos sobreviventes estendeu a cobertura a esposas, viúvas e filhos.
“O que foi feito não pode ser desfeito”, disse Bill Clinton, presidente americano, no pedido de desculpas feito na Casa Branca em 16 de maio de 1997, diante de cinco sobreviventes.
Peter Buxtun morreu em 2024, aos 86 anos, na Califórnia.
Confira por conta própria antes de contar o caso de Tuskegee:
• a data da reportagem de Jean Heller na Associated Press, 25 de julho de 1972;
• o ano do teste de John Mahoney com penicilina contra a sífilis, 1943;
• o ano da Lei Nacional de Pesquisa, aprovada pelo Congresso em 1974.
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