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Priorado de Sião: a lista de grão-mestres que dormia na Biblioteca Nacional

Pierre Plantard pôs Newton e Da Vinci numa sociedade secreta de papel em 1967, e em 1993 admitiu a um juiz que tinha inventado tudo.

Folhas datilografadas com árvores genealógicas sobre uma mesa de biblioteca francesa, sob luz de abajur.

Os dossiês do Priorado, Paris, 1967

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A editora Doubleday publicou em março de 2003, na página de abertura de O Código Da Vinci, o romance de Dan Brown, a frase: "O Priorado de Sião, sociedade secreta europeia fundada em 1099, é uma organização real". Ela vinha sob o rótulo "Fato", antes do primeiro capítulo.

A página seguia adiante e prometia uma prova de arquivo: documentos franceses chamados Les Dossiers Secrets (em francês, "os dossiês secretos"), com a relação dos chefes da ordem, entre eles Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci.

Os papéis existem, e é por esse motivo que a frase convenceu tanta gente. Estão catalogados na Bibliothèque nationale de France (Biblioteca Nacional da França), em Paris, desde 1967. Qualquer pesquisador com carteirinha pode pedir para vê-los.

A biblioteca, porém, não descobriu nada. Os dossiês foram entregues ao depósito legal, o sistema pelo qual todo impresso publicado na França precisa deixar exemplares no acervo nacional. Na França, a obrigação existe desde 1537, por ordem do rei Francisco I. Quem imprimiu e entregou os papéis foi o próprio grupo que eles descrevem.

O livro de Dan Brown vendeu dezenas de milhões de exemplares e virou filme em 2006, com Tom Hanks no papel do simbologista Robert Langdon e a mesma página de abertura reproduzida em cartazes e reportagens. Milhões de leitores saíram da última página convencidos de que Newton guardava um segredo sobre a linhagem de Jesus Cristo, protegido por uma irmandade de nove séculos.

O que o romance não contava é que o criador da irmandade tinha nome, endereço em Paris e ficha na polícia. Chamava-se Pierre Plantard, trabalhava como desenhista e colecionava títulos de nobreza que ninguém lhe dera.

Também não contava que Plantard, interrogado por um juiz de instrução francês em 1993, admitiu sob juramento que tinha inventado a história. A primeira seção abre os dossiês e mostra o que eles afirmam, folha por folha.

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I  A Conspiração do Dia

Nove séculos em papel datilografado

Pierre Plantard, desenhista industrial nascido em Paris em 1920, fundou uma associação chamada Priorado de Sião em 1956 e, desde 1967, fez circular documentos que a apresentavam como uma ordem secreta criada em Jerusalém no século XI.

A peça mais citada da coleção tem o título Dossiers secrets d'Henri Lobineau (dossiês secretos de Henri Lobineau). Lobineau seria um genealogista; o nome foi tomado emprestado de Guy-Alexis Lobineau, historiador bretão do século XVIII, que não teve participação alguma nos papéis.

São folhas datilografadas, árvores genealógicas desenhadas à mão e recortes colados, sem editora e sem data clara. Entraram na biblioteca em pacotes separados, entre 1964 e 1967, e ganharam números de catálogo como qualquer folheto.

O enredo dos dossiês se organiza em três afirmações. A primeira é que a dinastia merovíngia, que governou os francos até o século VIII, não se extinguiu: um ramo teria sobrevivido escondido, e Plantard seria seu herdeiro direto.

A segunda afirmação é que uma ordem, o Priorado de Sião, protegeu essa linhagem por séculos. Ela teria nascido na abadia de Nossa Senhora do Monte Sião, em Jerusalém, e teria criado os Cavaleiros Templários como braço armado. A abadia de Monte Sião existiu de fato, fundada pelos cruzados, mas os registros medievais dela não mencionam priorado algum com essa missão.

A terceira é a lista. Os dossiês enumeram os nautonniers (em francês antigo, "timoneiros", o título dado aos grão-mestres) desde 1188. Entre os nomes aparecem Sandro Botticelli, Leonardo da Vinci, Robert Boyle, Isaac Newton, Victor Hugo, Claude Debussy e Jean Cocteau.

Cocteau, morto em 1963, não podia desmentir. Todos os demais tinham morrido séculos antes. A escolha desenha o método: nomes célebres o bastante para impressionar e distantes o bastante para ninguém contestar.

Os dossiês vinham amarrados a um lugar real, Rennes-le-Château, aldeia do sul da França. Ali, o padre Bérenger Saunière reformou a igreja e ergueu uma torre na década de 1890 com dinheiro de origem nebulosa. Os papéis diziam que ele achara pergaminhos com o segredo merovíngio escondidos num pilar do altar.

 
 

II  A Origem

O desenhista que queria ser rei

O Priorado de Sião real nasceu em 7 de maio de 1956, registrado na subprefeitura de Saint-Julien-en-Genevois, na Alta Saboia, como associação de moradores de Annemasse com quatro sócios e um boletim mimeografado.

O estatuto, arquivado no Journal officiel (diário oficial) francês, previa estudos e ajuda mútua entre os membros. O boletim se chamava Circuit (em francês, "circuito") e defendia moradia popular na cidade. Não havia menção a Jerusalém, a Templários nem a merovíngios.

O histórico de Plantard ajudava a explicar a ambição. Em 1942, durante a ocupação alemã, ele fundou um grupo chamado Alpha Galates e publicou uma revista de tom antissemita, alinhada ao regime de Vichy. Em 1953, a Justiça francesa o condenou a seis meses de prisão por fraude e abuso de confiança.

O salto de associação de bairro para ordem milenar precisou de dois parceiros. O primeiro foi Philippe de Chérisey, humorista e ator, que produziu os pergaminhos atribuídos a Saunière copiando trechos de um manuscrito latino medieval, o Codex Bezae (códice de Beza, um evangelho do século V), com mensagens cifradas embutidas.

O segundo parceiro foi o jornalista Gérard de Sède. Seu livro L'Or de Rennes (o ouro de Rennes), publicado pela editora Julliard em 1967, levou a lenda de Rennes-le-Château ao grande público e reproduziu os pergaminhos como achados autênticos.

Chérisey admitiu a falsificação ainda nos anos 1970, em textos reproduzidos pelo pesquisador Jean-Luc Chaumeil no livro Le Trésor du triangle d'or (o tesouro do triângulo de ouro), de 1979. A confissão não freou a lenda. Em 1982, os ingleses Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln publicaram O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, que acrescentou o passo decisivo: a linhagem merovíngia descenderia de Jesus e Maria Madalena.

O livro se apoiava nos dossiês da Biblioteca Nacional e em entrevistas com o próprio Plantard. Vendeu milhões, e foi dele que Dan Brown tirou a espinha do romance. Baigent e Leigh processaram a editora de Brown por plágio em Londres, em 2006, e perderam. O juiz Peter Smith concluiu que Brown usara ideias gerais, e ideia histórica não tem dono.

 

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III  O Combustível

O juiz que pediu a lista

O desmonte veio de um escândalo financeiro sem relação com Templários. Em 1989, Plantard ressuscitou o Priorado e anunciou um grão-mestre moderno: Roger-Patrice Pelat, empresário amigo do presidente François Mitterrand, morto naquele mesmo ano.

Pelat estava no centro do caso Pechiney, investigação sobre uso de informação privilegiada na compra da empresa americana Triangle pelo grupo estatal francês Pechiney, em 1988. Ao ler que um investigado aparecia como chefe de sociedade secreta, o juiz Thierry Jean-Pierre quis entender o papel.

Em 1993, o juiz mandou revistar a casa de Plantard e o chamou para depor. Sob juramento, Plantard declarou que tinha inventado o Priorado de Sião na versão milenar, incluindo a lista de grão-mestres e a ligação com Pelat.

A busca encontrou papéis em que Plantard se proclamava legítimo rei da França. O juiz o advertiu formalmente para não repetir a história e encerrou o assunto sem processo. Plantard se recolheu e viveu discretamente até 2000, quando faleceu em Paris.

Por que a lenda sobreviveu à confissão? A primeira razão é o carimbo institucional. Um documento com número de catálogo da Biblioteca Nacional parece conferido pela biblioteca, embora o depósito legal aceite qualquer impresso sem checar conteúdo.

A segunda razão é a cadeia de citações. De Sède citava os dossiês, Baigent citava De Sède e os dossiês, Dan Brown citava Baigent. Cada elo parecia confirmar o anterior, e todos bebiam da mesma fonte: as folhas datilografadas de Plantard.

"Em 1975, a Bibliothèque Nationale de Paris descobriu pergaminhos conhecidos como Les Dossiers Secrets."

Dan Brown, O Código Da Vinci, página "Fato", 2003. Os papéis não eram pergaminhos, e a biblioteca os recebera por depósito legal oito anos antes.

A terceira razão é o gosto pela lista. Newton, Da Vinci e Hugo são figuras que o público admira e sobre quem sabe pouco no detalhe, e encaixá-los numa irmandade dá sentido a gênios dispersos por cinco séculos.

O que o caso estabeleceu: a associação Priorado de Sião foi registrada em 1956 em Saint-Julien-en-Genevois; os Dossiers secrets entraram por depósito legal na Biblioteca Nacional da França entre 1964 e 1967; Plantard admitiu a invenção diante do juiz Thierry Jean-Pierre em 1993.

O que continua sem resposta: a origem exata do dinheiro que o padre Saunière gastou em Rennes-le-Château. A hipótese com mais apoio documental, defendida pelo bispado de Carcassonne na época, é o tráfico de missas, a venda de celebrações pagas por fiéis; o processo eclesiástico que o suspendeu em 1910 não detalhou as contas, e os livros dele se perderam.

A lição prática deste caso: antes de aceitar um documento como prova, descubra quem o depositou no arquivo, porque catálogo de biblioteca registra a existência do papel, não a verdade do conteúdo.

"Se a única fonte de uma ordem milenar é um pacote entregue pelo próprio fundador, quem está falando: a história ou o fundador?"

Confira sozinho, em três buscas:
o registro da associação Priorado de Sião em 7 de maio de 1956, no Journal officiel;
a ficha dos Dossiers secrets d'Henri Lobineau no catálogo da Biblioteca Nacional da França;
qual juiz ouviu Plantard em 1993 no caso Pechiney.

 
 
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Quiz da edição

Em 1993, diante de um juiz de instrução francês, o que Pierre Plantard admitiu sob juramento?

AQue os pergaminhos vieram de um pilar do altar em Rennes-le-Château
BQue Isaac Newton nunca fez parte de nenhuma lista
CQue tinha inventado a história do Priorado de Sião, incluindo a lista de grão-mestres
DQue vendera os documentos originais para a editora Doubleday

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